terça-feira, 4 de abril de 2017

O que aconteceu com Marilyn Manson?

A vida é uma grande carruagem decadente. O que foi ontem não é mais hoje, e talvez volte a ser amanhã. Ou nunca mais.
No mundo artístico, renovar-se sem perder sua essência parece ser algo cada vez mais impossível de acontecer. Você desponta como um excelente artista pioneiro dentro de determinados gêneros, até quebrar as barreiras e expandir sua música e sua mensagem mundo a fora. 
Marilyn Manson é uma figura difícil de classificar. Não apenas o gênero de sua banda, mas é difícil classificar sua arte. Ou pelo menos era. Há pouco mais de dez anos, Manson vem lançando uma série de álbuns fracos e entediantes, numa frequência que deixa o mais célebre dos fãs furioso. O que será que aconteceu? Marilyn Manson perdeu sua criatividade?



MANSON 1990-2000
Os dez primeiros anos da carreira de Marilyn Manson foram os mais "fodas" para a banda e para os fãs. E assim permanece até hoje. Nos primeiros anos, quando ainda era um jornalista com o intuito de formar uma banda, o ainda Brian Warner entrevistava diversas bandas para seus artigos numa revista local. Dentre as bandas que ele entrevistou, estava o Front 242 e o NIN, duas influências que ficariam óbvias mais tarde no trabalho da banda. De cada grupo e artista que Brian entrevistava, tirava o que funcionava e o que não funcionava para eles e armazenava em seu cérebro. Todas essas informações ele usaria mais tarde para favorecer sua futura banda.
Já na época do Spooky Kids, ele mostrava que não esquecera o que aprendera no mundo do marketing. E talvez essa tenha sido a característica definitiva para estabelecer a Marilyn Manson como uma das mais influentes bandas dos anos 1990. Ele realmente manjava de propaganda. Tanto que nos primeiros shows, haviam diversas distribuições de lancheiras com adesivos e flyers da banda. Quando você entrava para o fã-clube, eles lhe enviavam diversos materiais pelo correio e pediam que os fãs ligassem para as rádios e pedissem para tocar suas músicas. Essas bem sacadas estratégias de marketing garantiu a fama em sua cidade natal, e logo depois fama o suficiente para convencerem Trent Reznor, do NIN, a lança-los pelo seu próprio selo, a Nothing Records.
Manson na época que reviveu Ziggy
Stardust, de David Bowie, colocando
o glam sob uma nova perspectiva
Tanto Portrait of American Family quanto e EP Smells Like Children fizeram um certo barulho, principalmente por conta da faixa Sweet Dreams, a última música da banda que deveria ser interpretada como uma piada. O álbum sucessor, Antichrist Superstar não se tratava mais de algo que não devesse ser levado a sério. Era um álbum com uma mensagem, acima de tudo, possuída por uma raiva incomum. Encerrar esse álbum fora uma das coisas mais complicadas que a banda fez, e quando terminaram, Manson alegou que seria capaz de fazer qualquer coisa (e seria mesmo, incluindo tornar-se em um roqueiro queridinho de Hollywood). Anos depois, ficamos sabendo que Antichrist Superstar seria o terceiro álbum de uma conceitual trilogia invertida.
Mechanical Animals e Holy Wood foram os sucessores do primeiro grande álbum de Marilyn Manson. O primeiro, apesar de extremamente frio e introspectivo, abandonou a raiva de seu antecessor para dar lugar a questionamentos filosóficos sobre diversos assuntos. E foi ainda o álbum responsável por reviver o glam rock na visão do próprio Marilyn Manson. Holy Wood tem mais peso que Mechanical Animals, principalmente por ter sido lançado após a tragédia de Columbine, fato que fez com que a mídia conservadora culpasse a Marilyn Manson diretamente pelo acontecido. Esse fato pesou muito nas composições, e Holy Wood consegue ser o álbum mais cheio de sofrimentos e mártires. Por isso seria o primeiro da trilogia invertida. Primeiro vem o sofrimento, depois a frieza mecânica, para por fim, vir a raiva explosiva. 
Holy Wood encerra a última fase realmente criativa de Marilyn Manson. 

MANSON 2003- ATUALMENTE
Manson, em um dos momentos do clipe
da música "Deep Six". Música chata
pra caralho.
Em 2003, temos Golden Age of Grotesque, já dando sinais que Marilyn Manson abandonara os álbuns conceituais para iniciar uma jornada aos álbuns temáticos. O tema deste álbum seria a Berlim circense e decadente dos anos 1930. Uma mudança bem grande ocorreu já na sonoridade da banda, deixando o som mais próximo do metal e a kilometros de distância de suas supostas raízes industriais. Mas ainda assim, dava para passar o tempo ouvindo alguns sons deste álbum. Após o lançamento da primeira coletânea da banda, a Lest We Forget, Marilyn Manson deu um hiato de 3 anos para lançar uma imensa porcaria chamada "Eat Me, Drink Me". Porcaria como ele mesmo admite, pois abandonara as drogas e vivia embriagado de absinto e maconha. Costumo chamar esse álbum de "dor de cotovelo", pois é bem óbvio que ele deveria estar sofrendo disso ou de dor de corno para alguma das muitas garotas que passaram por sua vida. O álbum a seguir, High and the Low consegue ser pior ainda, com a enxurrada de elementos eletrônicos totalmente dispensáveis em letras mais dispensáveis ainda. Este álbum sequer tem tema ou conceito. São músicas soltas e mal agrupadas. Born Villain, lançado em 2012 e que prometia ser o álbum mais pesado da banda, trazendo na capa o próprio Manson com uma estética que lembrava os primórdios da banda (visto que nos dois álbuns anteriores ele fez questão de se afastar totalmente de seu antigo personagem, não numa tentativa de reinvenção, mas de abandonar literal e totalmente aquilo que lhe deu fama, dinheiro e seguidores), foi o estopim da merda no ventilador. O álbum não tem uma música boa, e a tentativa de causar choque foi maior do que a criatividade. Manson não precisava causar choque nas pessoas, por que ele próprio era um choque, um tapa na sociedade, principalmente a norte-americana. Não havia restado nada do que nós gostávamos e conhecíamos do velho Manson. De certa forma, acabou tornando-se o roqueiro queridinho de Hollywood, chegando a tocar com artistas como Johnny Depp e Alice Cooper, que ele dizia tanto desprezar nos anos 1990, quando o mesmo surtou e acusava para quem quisesse ouvir que Antichrist Superstar apontava diretamente para ele. Ninguém entendeu mais o motivo pelo qual Marilyn Manson continuava (e continua) lançando álbuns novos, se ele só havia perdido tempo e dinheiro nos últimos anos.

PALE EMPEROR
Pale Emperor, apesar de mais audível que os três últimos, não deixa de decepcionar em diversos pontos. Um deles é o abandono total dos elementos eletrônicos que são o som que diferenciava a banda das demais intituladas de "metal industrial". Este disco não soa como metal, e sim como hard rock, e apesar de bem executado, não tem o fogo de antes que era característico do Marilyn Manson. É o primeiro álbum com algum vestígio de conceito desde o Holy Wood, o que nos leva a ter uma certa esperança que uma nova boa fase esteja começando. 

CONCLUSÃO
Eu nunca vou entender como Marilyn Manson conseguiu se transformar no que é hoje. De artista underground e anticristo odiado pela direita religiosa e conservadora, culpado pelo massacre em Columbine, ao roqueiro queridinho de Hollywood. E não se trata de querer ver um cara de 50 anos com maquiagem, espartilho e bunda de fora no palco. Se trata do fato dele ter perdido a direção artística. Bowie se reinventou e se tornou um artista ainda mais forte com o passar dos anos. Isso vai muito além de estética. Tem a ver com o que você está cantando para os fãs. Até o Holy Wood, as pessoas podiam tirar tantas mensagens incríveis em todas aquelas músicas. O Antichrist Superstar me ajudou a compreender a mim mesmo numa fase muito turbulenta da minha vida pessoal. Holy Wood, por incrível que pareça, era a fonte de onde eu tirava energia e força para manter a minha essência, não importava se para isso eu tinha de ser o mártir da minha família, da minha escola e do meu bairro. Músicas como The Nobodies, The Beautiful People, Coma White tinham um efeito enorme na minha auto-estima. 
Quando pegamos o ano de 1993 e comparamos com 2000, nós podemos perceber que mudanças significativas aconteceram, mas que ainda se tratava do mesmo artista, reinventado diversas vezes. Quando pegamos 2000 e comparamos com 2015, parecem ser diversos artistas diferentes, de nichos completamente diferentes. 
Não sei o que houve, e francamente, perdi tanto o tesão que não espero nada para o futuro. Pra mim, Manson terminou junto com o primeiro e último capítulo da trilogia invertida.